Comecemos pelo que a técnica sabe e o mercado nem sempre diz: o concreto armado fissura por natureza. O aço só trabalha plenamente depois que o concreto tracionado fissura; o que o projeto controla não é a existência das fissuras, e sim sua abertura, mantida em limites que não comprometem durabilidade nem aparência, conforme os estados limites de serviço da ABNT NBR 6118.
Fissuras capilares estabilizadas em regiões tracionadas são o comportamento previsto do material. Sinais de alerta são outros: aberturas que crescem no tempo, padrões inclinados junto a apoios, fissuras acompanhadas de manchas de corrosão ou de deslocamentos perceptíveis. O diagnóstico correto começa por identificar a causa, retração, sobrecarga, recalque, térmica, antes de qualquer intervenção.
Vigas e lajes deformam-se ao receber carga, a flecha imediata, e continuam deformando-se por anos pela fluência do concreto, a flecha diferida no tempo, que pode multiplicar a inicial. Alvenarias e caixilhos instalados cedo sobre estruturas jovens pagam essa conta em fissuras de vedação. O projeto responsável verifica os limites de deslocamento da norma considerando o efeito do tempo, especifica contraflechas quando apropriado e informa à obra os cuidados de cronologia construtiva.
Controle de fissuração por detalhamento adequado das armaduras, espessuras de laje compatíveis com os vãos, verificação rigorosa de serviço, especificação de concreto e cobrimento pela agressividade do ambiente e comunicação clara com a execução, nos termos da ABNT NBR 14931: é este conjunto, decidido no projeto, que separa a estrutura que envelhece bem daquela que vira dor de cabeça, e ele custa uma fração de qualquer reforço futuro.